Diferentemente da programação convencional, em que um programa executa sempre a mesma função com dados diferentes, a adaptabilidade propõe um comportamento diverso diante de cada nova circunstância.
“Um programa adaptativo tem uma crítica sobre aquilo que ele fez e o resultado que obteve. Quando isso acontece, ele modifica o seu próprio comportamento e começa a operar com aquele aprendizado que conseguiu a partir da experiência anterior,” explica o professor João José Neto, da Escola Politécnica da USP.

Decisões econômicas

Os programas adaptativos, uma técnica de inteligência artificial, já são usados na busca de soluções de problemas ligados à tomada de decisão, uma atividade diária na administração, na economia e na gestão de empresas.
Lidando com um grande volume de variáveis muito voláteis e efêmeras, tomar uma decisão sobre como agir é um desafio frequentemente além da capacidade de raciocínio e memória dos seres humanos.
Mais do que isso, o próprio conjunto de variáveis é inconstante, o que obriga as decisões a serem reavaliadas continuamente.
É aí que a adaptabilidade entra, ponderando as variáveis e agregando o histórico de experiências anteriores malsucedidas.
Mas os programas adaptativos não são voltados apenas para o passado. Além das atividades com problemas já conhecidos, o grupo de pesquisadores da USP trabalha também com problemas ainda desconhecidos – o próprio problema deve ser descoberto, equacionado e, só então, é possível buscar a melhor solução dentro do espectro de soluções possíveis.

Paraíso

O professor João José ressalta, contudo, que o “paraíso” para quem domina as técnicas adaptativas são os jogos de computador.
Uma característica dos jogos é o potencial infinito de mudança de comportamento e de exposição a condições diversas.
Além disso, jogos são simulações, o que pode ser perfeitamente utilizado como método de ensino e treinamento caso o programa possua uma lógica que procure simular exatamente o fenômeno real correlato.
A funcionalidade do simulador, porém, depende justamente da sua adaptabilidade, variando de acordo com a atividade e com o comportamento dos agentes que interagem com ele.

Linguagem natural

Um dos trabalhos em desenvolvimento – a “menina dos olhos da equipe”, nas palavras do pesquisador – está ligado à linguagem natural, usando as técnicas da adaptabilidade em programas de tradução e de transcrição automática de textos ou da fala.
Ao contrário dos programas já existentes, que se apegam preferencialmente à fonética, o projeto se atém à formação das palavras, à filtragem dos erros e à análise, procurando descobrir a sentença correta.
Apesar do enorme campo de aplicação, contudo, o professor João José afirma que o medo da teoria ainda é o grande empecilho à formação de novos profissionais na área.
“As pessoas acham que para fazer esse tipo de coisa tem que saber muita teoria. É preciso saber um pouco de teoria, sim, que é a base em cima da qual nós construímos as coisas, mas é preciso também baixar um pouco a guarda e conhecer um pouquinho dessa teoria dita complicada. Ela não é complicada, a pessoa precisa de um ano de experiência trabalhando um pouco com essas coisas para se inteirar,” afirma ele.